Meus são os olhos serenos
Que disfarçam a Fera
Senhora das Eras
Que me fala ao peito
“Desperta-te!”
Recusar indulgências
E não tapar os ouvidos
Nem calar-me a boca
Para quem me guardarei?
Sinto sozinho o frio
Sem pedir pelo agasalho
Que ninguém é capaz de oferecer
Morro sem ninguém saber
Meu medo é não haver nada
Que mantenha minha lucidez
Temo que se destruam os pilares
Que erguem minha sanidade
Recorri aos homens
Questionei os Deuses
E não obtive a resposta
Para meu velho e pestilento coração
Clama em vão, ó peito
Por quem não ouvirá!
Atentará a este moribundo
A corte da nobreza?
Sim, eu digo!
Porão em minhas mãos as suas sobras
Esmolas e restolhos...
Malditos sejam! Não aceito vosso lixo
Sou como a água que é levada aos céus
Como todo vapor traduz a sua leveza
Mas meu mundo se escurece
E retorno ao chão mais rápido que um relâmpago!
Quisera eu ser como as eternas paredes de gelo
Cuja rigidez as mantém intactas
Pena que tenho a alma líquida
Dentro de um corpo fragilmente trincado...

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