sexta-feira, 12 de agosto de 2011

AO NADA




Meus são os olhos serenos
Que disfarçam a Fera
Senhora das Eras
Que me fala ao peito
“Desperta-te!”

Recusar indulgências
E não tapar os ouvidos
Nem calar-me a boca
Para quem me guardarei?

Sinto sozinho o frio
Sem pedir pelo agasalho
Que ninguém é capaz de oferecer
Morro sem ninguém saber

Meu medo é não haver nada
Que mantenha minha lucidez
Temo que se destruam os pilares
Que erguem minha sanidade

Recorri aos homens
Questionei os Deuses
E não obtive a resposta
Para meu velho e pestilento coração

Clama em vão, ó peito
Por quem não ouvirá!
Atentará a este moribundo
A corte da nobreza?

Sim, eu digo!
Porão em minhas mãos as suas sobras
Esmolas e restolhos...
Malditos sejam! Não aceito vosso lixo

Sou como a água que é levada aos céus
Como todo vapor traduz a sua leveza
Mas meu mundo se escurece
E retorno ao chão mais rápido que um relâmpago!

Quisera eu ser como as eternas paredes de gelo
Cuja rigidez as mantém intactas
Pena que tenho a alma líquida
Dentro de um corpo fragilmente trincado...


DE ONDE NUNCA SAIREI






Meus pés me levaram
Ao Jardim Suspenso
Do Desespero
Onde as cores mortas
Estampam a pintura.
E brota das folhas secas
O odor mortífero que se multiplica
E não há vida em coisa alguma
Tudo parece estar no lugar
Exceto o objeto estranho
Que é meu corpo imóvel
Estático a olhar
O desfecho de minha vida breve

A névoa esconde o horizonte
Destrói perspectivas
Abandono as possibilidades
O preto e o branco traduzem
O que os olhos não querem ver.
Aquilo que vim a me tornar:
Criatura sem alma
De olhos bestiais
Irracionalmente incapaz de amar
Porque o amor nunca conheceu.
Monstro maléfico e traiçoeiro
Que permeia a mente dos mortais
Causa espanto e temor...

Para onde foi minha alma
Levando consigo meu verdadeiro eu?
Resta-me este animal
Esta Fera, esta Fúria
Que me arde por completo
Desde séculos e séculos.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

AMOR...




Que mal fiz eu aos céus
Para ser amaldiçoado com a praga do amor
Que me dilacera a alma
E me joga em dissabor?

És tão divino, ó amor
Por que então me fazes definhar
Enquanto todos estão em júbilo
E vivem a festejar?

É bem verdade que és dádiva para uns
Mas para outros, maldição...

És injusto, cruel, maléfico
E sei que não me escolheste

Meu coração está estragado
Quebrado em mil pedaços
Eu apenas soube amar
Mas nunca fui amado

Então consuma de uma vez o teu desejo: mate-me
Acabe com esta agonia que não aguento mais
Já não me feriste o bastante?

Maldito sejas, ó amor. Eu o renego
És meu inimigo e me derrotaste por eterno
Mas esteja certo: nos veremos no inferno!




terça-feira, 10 de maio de 2011

LONELINESS



Meu corpo jaz inerte, imóvel. Frio como o inverno
E as folhas escarlate que caem das árvores
São como o sangue que jorra de minhas veias até o chão

Aquele vento gélido não me causa mais arrepios
Não sinto nada
E já não o sentia há muito.
Na solidão, até os fantasmas me deixaram
E os demônios não mais me comem a carne...

Alimento-me das trevas, nutrindo-me com agonias
Não há Bem que me alcance ou Mal que me incomode.
Só há o frio e o uivo dos ventos que rompe o silêncio

A luz dos céus não chega ao fundo do Abismo
E enterro-me bem fundo nele
Onde meus gritos não serão ouvidos
Nem voz alguma me alcançará.

Minhas asas quebradas me impedem de voar
Meus braços feridos não me permitem escalar até o alto
Meus joelhos cansados me mantêm prostrado
Não posso mover-me. E aqui ficarei para sempre

Até o epílogo da minha existência...

QUERIDO FANTASMA




Você mora em meus pensamentos... Assombra-me os sonhos. 
E eu tenho medo da noite, do seu frio e de sua escuridão. Ela revela tua imagem...
Me encolho abaixo da janela, tapando os ouvidos para que não ouça tua gélida voz.
E trovões, e tempestades, e raios eternamente desabam sobre meu mundo escuro...

Olhos ameaçadores na escuridão, dois pontos luminozos nas trevas: Estás a me olhar!
Minha vida  esvai-se junto com as lágrimas. E minha alma aos poucos desprende-se do meu corpo.
A cada momento me torno mais morto!
E ainda vejo tua figura em todas as direções que olho.

Desde quando tudo se tornou tão vazio? Desde quando as estrelas perderam seu brilho? 
Desde quando o perfume das rosas se tornou um veneno? E todas as coisas perderam suas cores?

O destino juntou nós dois, e também o tirou de mim...
És agora um fantasma. Mera lembrança. Memória que me atormenta...
Me fazias sorrir, agora fazes-me sofrer. 

                                                     Eu o amei...

Deixarei este corpo que não mais me serve. Juntarei me às Trevas, onde não haverão lembranças nem sonhos.
Onde não existirá um              Você e Eu...



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ANJO CAÍDO







Caminhei
Desde a mais antiga Era
Habitei esta esfera
E assim como uma fera
Por uma presa ansiei


Sozinho
Destruído e exilado
Conheci um passado
Que nunca lhes foi falado
Onde havia dor e espinho


Escuridão
Onde encontrei abrigo
E me tornei amigo
Dos que compartilhavam comigo
Sua maldição


Perdurou
A minha sina, eterna...
Mas enfim quis sair da caverna
E mesmo os grilhões à perna
Não detiveram este que escapou


Enfim
Andei por entre as criaturas
Com as minhas vestes escuras
E deles conheci as amarguras
Assim como conheceram a mim


Amado
E por muitos também ferido
Malditos os que tenham conhecido
A mais pura essência do desconhecido
Pois que agora lhes seja revelado


Lamento
Se hoje venho lhes falar
Mas em mim não existe o amar
Pois à Criação me faz odiar
Este meu coração cinzento


Sou
A Sombra que espreita
O que nas Trevas se deleita
Minha revanche está quase feita
Sou Anjo que nunca chorou...



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ÁGUAS FÚNEBRES






O vento abraça meu corpo
Meus olhos jazem fechados
Trancados


Um feixe de luz recai sobre mim
E as aves cantam em meu funeral
Fatal


O mar investe contra as rochas
Lá embaixo, ele me deseja
Sim, almeja


Este chão não terá o meu corpo
Nem os vermes terrestres
Serão os mestres


Estou caindo... Me aproximo
De encontro às pedras, duras
Esculturas


Sejam meu túmulo e digam
A quem as vier procurar:
"Sobre o mar


Tombou um miserável..."



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

MORTÍFERO SILÊNCIO





Venha, me consuma
E assuma 
O dano que causares


Mate-me aos poucos
Lamentos roucos
De quem não mais pode falar


Maldita peçonha
Que escapa de minha coronha
De encontro à minha fronte


É a água-dos-perdidos
Que bebem os caídos
E os que não souberam amar


Desejo partir
E logo sair
Enterrando toda a esperança


Não quero ficar
Não me deixe parar 
De consumar o meu fim


Veja todo este sangue
E não se zangue
Pois a você não e dado limpar


Um último gole
Que a garganta se esfole
Para que não me ouças gritar


Um vislumbre da janela
Logo penso nela
Que tão longe se encontra


Os meus olhos eu fecho
Não há outro desfecho
Senão o mortífero silêncio...



VAZIO



Jaz aqui um miserável ser
Que contempla o cinza do céu
Frio, escuro como o morrer
Minha alma assim saboreia seu fel


Olhos fitam a imensidão do nada
E o coração lamenta por sua virtude esgotada
Do amor dado a poucos nesta breve jornada
Mas  nunca reposto, jaz uma fonte abandonada


A Sombra é o que resta
Como companheira a todo instante
Neste Inferno, onde nada presta
Tomei a solidão por amante


Maldito Gárgula, esquecido e sozinho
Privado de ternura e carinho
Sob escarros trilha o seu caminho
Faz das trevas seu próprio ninho



LEPRA SOCIAL




Outrora foram eles pelos povos rejeitados
Sua maldição podiam facilmente espalhar
Perdidos em suas misérias, calados...
Pois o fio de suas vidas esperava-se logo cortar


Oh lepra que hoje me revestes
Feridas na carne não mais produz
É doença da alma, flagelo e peste
Que torna a solidão pesada cruz


O isolamento a que é submetido
O detentor desta marca maldita
Sinal de Caim, espírito perdido
O consumar das cinzas incita


O temor do contágio afasta os sãos em distância
Se regozijam em ver o moribundo em condenação
Sob falso júri, perversos semeadores da ignorância
Especulam levianamente com punhais em meu coração



NADA ALÉM DO NADA







Nada além do nada
Como as cinzas que me revestem
Nada além do nada
Como as almas que se entristecem


O tudo me tornou mudo
Quando a ela levou embora
O tudo que compõe meu escudo
É como a etérea luz da Aurora


Nada além do nada
É a brisa que sopra constante
Nada além do nada
É o frio de seu feitiço cortante


O tudo que era tudo
Forte como um grande monte
O tudo que não mais estudo
A sede fez-me secar a fonte


Tua ausência
Minha decadência... 


Tudo e nada
Nas profundezas amargas
Buscando resistir às cargas


Nada e tudo
Matei meus anjos de virtude
Cultivei demônios em magnitude


Pois nada além do nada
Foi o que me deixaste
Nada além do nada
Foi o que me tornaste...